Lendo hoje de manhã, um escrito de António Lobo Antunes, numa
revista que compro amiúde, lembrei-me de que tb a minha mãe merece a
mesma homenagem... porque, tal como aconteceu com ele, também foi a
minha mãe que me ensinou a ler quando eu tinha 5 anos. Ainda valorizo
mais o facto de a minha mãe ter comprado para ela, a Cartilha João de
Deus... com que me ensinou.
Naquele tempo, em que ela foi criança,
as meninas não íam à escola, lá no interior da serra algarvia. Os
meninos, sim. Os meus avós tinham 5 filhos e, aos 2 rapazes foi dada
essa possibilidade, mas às meninas não. Alguém tinha que ficar para os
ajudar nos trabalhos do campo... Eles precisariam de escrever cartas
quando estivessem na tropa, de arranjar um bom emprego na GNR, GF ou
Policia... e elas precisavam disso para quê?!...
Era assim que se
pensava e, quando a professora, da aldeia próxima, resolvia percorrer
aqueles montes em busca das meninas em idade escolar, para
consciencializar os pais e "obrigá-los" a cumprir a lei... para que
elas não manifestassem a vontade de ir para a escola, eram mandadas para
o campo, para "despistar" a professora.
Enfim... era assim a
maneira de pensar dos meus avós e de todos os pais daquela época, no
campo. Vida chata, tiveram as meninas dos anos 30....
A minha mãe,
sempre se rebelou com isso. Era tão grande a vontade de aprender a ler e
escrever que, já casada e depois de eu nascer, comprou a Cartilha e
decidiu-se a aprender, de qualquer jeito. Começou por perguntar ao meu
pai, o som das letras que bailavam na frente dos seus olhos, em cada
páginha daquele livrito tão pequeno, mas que tinha um saber imenso
dentro dele.
A Escola Primária lá do Monte - Alcaria Alta/Alcoutim -
onde morámos até aos meus 4 anos, ficava mesmo ao lado... e a Regente
Escolar, D. Maria José Afonso, ao aperceber-se de tamanha vontade de
aprender, convidou-a a aparecer por lá, nas horas livres... e foi tão
grande a ajuda que, num ápice, a minha mãe, apreendeu todo o conteúdo"
da cartilha...
E assim foi...
Depois de aprender ensinou-me tudo o que sabia e, quando cheguei à escola, eu já papagueava a cartilha de uma ponta à outra.
Ter que "começar do princípio" foi um pouco chato, mas a Escola sempre
foi um lugar onde me senti feliz. Havia livros com fartura e no meio
deles sempre me senti bem.
Mais tarde, haveria eu de ensinar meninos
a ler. Os métodos já foram outros, mas a Cartilha João de Deus, esteve e
estará sempre no meu coração, como o meu primeiro e amado livro...
Ainda vou acrescentar que, anos mais tarde, no ano em que completei o
meu curso de Magistério Primário/1975, a minha mãe fez também o seu
exame do 4ª ano do Ensino Básico, com uma excelente nota, na Escola nº
2, em Loulé.
( Um pouco de história...
A Cartilha Maternal
foi publicada em Portugal em 1876; em 1888 as Cortes portuguesas
(parlamento) escolheram-na como método oficial de aprendizagem da
leitura. A partir de 1911, a Primeira República alargou a rede de
instrução pública, espalhando Escolas Primárias por quase todos os
centros urbanos, promovendo a difusão da Cartilha Maternal.
Antes e
depois das Escolas Primárias públicas, João de Deus, os seus amigos e
descendentes estabeleceram em 1882 uma rede de escolas autónomas,
originalmente designada "Associação das Escolas Móveis pelo Método de
João de Deus". Essas escolas evoluíram para Jardins Escolas e escolas
fixas. Entretanto, novos métodos pedagógicos foram surgindo no Ensino
Público mas, nesta rede autónoma, a iniciação à leitura contina a ser
feita segundo o método da Cartilha Maternal.)