quinta-feira, março 15, 2012

Ferrarias (Vaqueiros) - As minhas raízes estão lá...




Ferrarias - vista parcial

Ferrarias é um pequeno " monte", onde nasceu a minha mãe e, sempre viveram os meus avós maternos. Naquela época, só lá moravam 7 familias, mas eram famílias de muitos filhos e era um monte animado, contava-me ela.
Os residentes dedicavam-se à agricultura e à pastorícia em moldes de subsistência. Os meus avós tinham 3 filhas e 2 filhos. Elas ficaram no monte até casar e todas fugiram aos trabalhos do campo. Rumaram à vila e a Lisboa e os meus tios ingressaram na GNR, o que acontecia com os rapazes daquela época, que queriam fugir ao campo... Os meus avós talvez tivessem ficado tristes por perderem assim os continuadores do seu trabalho, mas nunca se manifestaram nem eu entendi isso.
As férias no monte eram uma maravilha!!!
Os meus primos também lá estavam e aquela liberdade toda era o mundo de que eu precisava para ser feliz.  Os brinquedos não eram muitos, aliás eram pouquíssimos. Tínhamos uma arte especial para os fazer e inventávamos brincadeiras e participávamos em aventuras, sem fim.
Os Invernos daqueles anos eram de muita chuva e os ribeiros ainda corriam, corriam Primavera adentro… O calor chegava cedo e convidava às saídas pelos campos pintalgados de flores amarelas, brancas e lilázes. O barranco que corria a 200 metros de casa e, cujo caminho para o Cercado o atravessava, foi palco das mais diversas brincadeiras. Não havia perigo, eram ribeiros pequenos e sem grandes pegos, naquela zona. A caminho da Eira havia outro ribeiro, mais perto de casa. Ainda ouço o barulho da água a correr, calmamente...
Estive há 2 meses nessa horta dos meus avós ladeada por este ribeiro. Achei falta da avenca que crescia no poço…secou, faltou-lhe a água que a toda a hora caía do caldeirão e regava as paredes do poço. Achei falta dos enormes plátanos que ladeavam o ribeiro …
 A horta, sempre verdejante, é hoje terra solta que nem a chuva de Inverno rega.
As casas envelhecem de tristeza e de saudade dos tempos áureos do monte e das gentes que nele viviam. 
Entrei na casa do fogo e fui ao quarto, onde em menina vi uma serpente enrolada debaixo de uma cadeira… Sempre me acusaram de estar a mentir, mas eu sei que não menti. Hoje acredito que, não aceitando a minha verdade, estavam a fazer-me acreditar que não tinha visto nada para não contagiar os outros com o medo que me fazia tremer as pernas franzinas…Avós são gente sábia!...
 Parte do telhado já caíu… olhei a “noiva” junto ao 'fogo de chão' onde gostava de me sentar e visualizei o meu avô Palma com os netos à volta... Quase consigo ouvi-lo : “Toca, toca pastorzinho toca, toca com vigor…” do conto do Pastor e da flauta que ele nos contava, ao serão. Com um misto de dor e de saudade lá fui eu seguindo a minha “romaria”… agora ao Cercado apanhar as azeitonas para a conserva, pois foi para isso que lá fui... é um terreno com muitas oliveiras que carregam e sempre deram azeite para a casa do meu avô.
Dá pena... só apanhamos as que queremos para conserva, porque o azeite compramos no supermercado. Crime!!! pois, claro.
Fica a 5 minutos do monte, bom caminho e lá perto fica a velha Mina da Cova dos Mouros. Teminada a azáfama das azeitonas, subi o caminho que me leva à Mina - uma horta rica outrora, que ganhou o nome da vizinha mina. Nesta horta nunca faltava a água, sempre a correr o ano inteiro…hoje crescem por lá tantas estevas, quase tão altas como eu, de tal modo que nem consegui coragem para avançar...  atemorizam-me as cobras!…
Desisti algo frustrada, porque gostaria de ter ido a esta horta. Subi a ladeira, atirei pedras ao Poço do Malacate, de longe, como dantes fazia, porque sempre nos chamaram a atenção para o perigo. A pedra ía batendo e fazendo um barulho seco nas paredes do poço, demorava a chegar ao fundo e, em silêncio, aguardávamos  o chap, chap, chap… metia respeito a miúdos e graúdos.
Através deste poço eram escoados os produtos da exploração da Mina da Cova dos Mouros, por meio da uma galeira transversal principal.
Recordações que doem...

 O primo Zé é o único residente no monte. terá uns 80 e tantos... Os anos não perdoam, tem sido uma vida de trabalho e solidão... Vai fazendo a sua vida - criando os animais, plantando umas coisitas, cuidando  e alimentando os burros, avestruzes, corças e veados - que a Cova dos Mouros lá continua a manter.
Os Domingos são sagrados para ele e o programa é sempre igual.  Mal se levanta dá de comer aos animais, toma o seu banho, barbeia-se, perfuma-se e mete-se à estrada rumo à aldeia onde convive com os conhecidos e almoça num dos resturante da terra.
Se ele não aparecer ao domingo, há-de ir gente ao monte. O normal é aquele passeio domingueiro e, não indo, o caso é sério...e preocupante!...


Sobre as Ferrarias e a sua mina.

No Blogue Alcoutim livre, pode ler-se:

Feira do Pão Quente e Queijo Fresco. / Algarve Nordeste

A aldeia de Vaqueiros - freguesia a que pertence Ferrarias, o monte onde a minha mãe nasceu, recebeu este domingo centenas de visitantes para a Feira do Pão Quente e Queijo Fresco.
Desde há 14 anos que se realiza esta Feira que a cada ano tem vindo a crescer, sendo, segundo a Câmara Municipal de Alcoutim um dos maiores eventos do concelho.


O pão, sendo o produto de eleição, e talvez por isso, é vendido a um preço muito alto. Ouvi diversas pessoas comentarem o preço do pão. A situação ecnómica do país está complicada e acho que as pessoas vendem caro, porque vendem pouco e como tal, não sao meiguinhas a pedir dinheiro. Isso faz com que os visitantes pensem 2x no acto da compra ou até nem comprem. A vida custa a todos e encher o depósito de combustível para lá ir "já dói bastante", enfim...
O que eu acho é que poderiam vender mais, ganhando menos e, feitas as contas, teriam mais dinheiro ao fim do dia...mas isto é o que eu acho.
Além do pão, o queijo fresco, os doces tradicionais - lá estavam as saborosas  filhós da minha amiga de infância a Maria Deonilde e os excelentes enchidos da serra também marcaram presença. 
As feiras são, como já foram no tempo do grande incentivador das feiras e mercados regionais - El-Rei D. Dinis,  grandes dinamizadoras da economia local. Os produtores apresentam os seus produtos e os visitantes compram e degustam sabores divinos....que são os sabores antigos das nossas memórias.
Relembramos assim, os nossos familiares que lá nasceram e viveram em tempos idos...
Activamos as nossas memórias mais recônditas que afloram em "flashbacks" ao nosso pensamento. Lembramo-nos do privilégio que foi vermos as nossas avós fazerem o pão e podermos comê-lo quentinho saido do forno. Vem-nos a água à boca, o sabor às papilas gustativas -  que ricas e saborosas costas de massa sovada com café de cafeteira feito e mantido quente no fogo de lenha!... Pelas narinas sobe o cheirinho do chouriço e... que rico chouriço que o avô assava na brasa - o daquele porco que vimos crescer na pocilga e que ajudávamos a alimentar com os vegetais excedentes da horta, farelos, figos de tuna, bagaço das azeitonas.... e, por acréscimo, relembramos tb o horror daqueles grunhidos de aflição e dor no dia das matanças...
Mas...continuando...Tenho uma história dolorosa... sobre esta feira.
Há 4 anos quando lá fui pela primeira vez, vi uma cesta cheia de batatas doces assadas, lindas e apetitosas, grandes.... Estavam ali a olhar para mim. A fome já se fazia sentir e comprei 8... lanchei batatas, jantei batatas, ceei batatas... Resultado - uma enormíssima dor de estômago. O problema não foi das batatas doces assadas, está-se mesmo a ver. Eu, simples mortal e pecadora q.b. sei que cometi um grande pecado mortal chamado Gula... mea culpa!...
A minha avó Palma , se fosse viva, diria: Levam-te os olhos mais do que a barriga, filha...(eu era neta, mas ela chamava-me filha, nunca entendi, mas hoje que sou avó, já entendo: ser avó é ser mãe 2x...)

Sempre que participo nestas feiras de sabores tenho saudades daquele reboliço  das feiras antigas, saudades dos ruídos que lhes eram caracteristicos...Saudades do relinchar dos cavalos, do grasnar dos patos, do grunhir dos porcos, do zurrar dos burros, do cacarejar das galinhas, do grugulejar dos perus, do balido dos cordeiros...
Saudades das feiras antigas  em todo o seu esplendor.  Éramos miudos e vivíamos tudo aquilo intensamente!!! Desde o raiar do dia...
Eram outras feiras...
Fotos da CMA.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Alcoutim: Mais um recanto simpático...


A dois passos do Guadiana, zona ribeirinha, entre o Cais Velho e a "boca" da Ribeira dos Canaviais. Está lindo! Adoro o chão de lajes...Parabens, Pelouro do Ambiente :))
Foi aqui que, em tempos, vim brincar com a minha amiga Angelina. Éramos miudas de 9-10 anos e isto não era assim... havia um canavial à direita, mesmo junto ao rio que corria, corria... Ela era alergica às canas e foi um desassossego...
SAUDADES desse tempo e dela também!!!

Nota: Já há uma entrada deste episódio, neste blogue.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Constituído o movimento Pró Futuro de Alcoutim

Grupo quer “trabalhar para a promoção de Alcoutim”
 
Personalidades como Mário Zambujal, Teresa Rita Lopes, Carlos Brito, Gaspar Santos e o presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, Francisco Amaral, entre outras figuras, constituíram recentemente o movimento intitulado Pró Futuro de Alcoutim.
No almoço inaugural, realizado naquela vila algarvia, no passado 21 de janeiro, foi aprovado e assinado o manifesto fundador onde se especificam os objetivos que o grupo toma por orientação e as ações que pretende realizar.
No texto, o grupo lembra que o Censos 2011 revelou que o concelho de Alcoutim “perdeu um quarto da população nos últimos dez anos”, existindo razões “para recear que esta sangria continue”.
“Os fenómenos do envelhecimento e da desertificação que a provocaram podem mesmo ser agravados pela presente política de contenção orçamental e outras medidas de austeridade em curso. Até onde? Para quem gosta de Alcoutim, esta ameaça é alarmante e inaceitável”, consideram.
Os últimos anos não trouxeram quaisquer projetos de desenvolvimento económico local, “capazes de criar postos de trabalho, garantir emprego, fixar e atrair população”, salientam, enquanto as “poucas” iniciativas que apareceram se depararam “com tantos obstáculos e exigências burocráticas da parte de organismos centrais”, em especial dos ligados ao ambiente e ao ordenamento, que os investidores acabaram por desistir. 
Até a ponte Alcoutim-Sanlúcar do Guadiana, acrescentam, que podia contribuir para “atenuar a situação extremamente periférica e de «fim da linha» em que o concelho se encontra”, acabou por ser retirada das agendas oficiais de Portugal e Espanha, “por razões economicistas, ao que se diz, mas verdadeiramente por falta de vontade política”.
As quase cinco dezenas de personalidades que assinam o documento e integram o grupo Pró Futuro de Alcoutim pretendem dar o seu “contributo” para “ajudar a modificar” este panorama.
O objetivo passa por “trabalhar para a promoção de Alcoutim” em todas as áreas onde possam exercer influência, nomeadamente comunicação social, turismo, economia, negócios e cultura, criando parcerias com outras instituições e localidades com quem possam trocar diferentes actividades culturais.
As personalidades disponibilizam-se para, “em conjugação” com os órgãos autárquicos, as associações e os partidos políticos, “exercerem pressão junto das estâncias políticas e administrativas centrais e regionais, seja para contrariar medidas adversas para o concelho, seja para acelerar medidas que o favoreçam."

quinta-feira, janeiro 19, 2012

A Lenda das Amendoeiras do ALGARVE

Há muitos séculos, antes de Portugal existir e quando o Al-Gharb ainda pertencia aos árabes, reinava em Chelb, a futura Silves, o famoso e jovem Ibn-Almundim que nunca tinha conhecido uma derrota.
Certo dia, entre os prisioneiros de uma grande batalha ,viu uma linda jovem de olhos azuis e porte altivo. Chamava-se GILDA e era conhecida como a Bela Princesa do Norte. Impressionado com tamanha beleza, o Rei Mouro deu-lhe a liberdade e conquistou-lhe a confiança. Certo dia, confessou-lhe o seu amor e pediu-lhe para ser sua mulher.
Durante algum tempo foram muito felizes, mas... não se fechem as princesas, nem que o castelo seja de ouro puro... Apesar daquele amor e de toda a felicidade do dia a dia, a PrincesaGILDA foi ficando cada dia mais triste…
Um velho cativo das terras do norte, pediu então para ser recebido pelo Rei e revelou-lhe que a Princesa sofria de nostalgia da neve do seu país distante. Então, os conselheiros, sugeriram ao rei que mandasse plantar amendoeiras por todo o reino. Muitas amendoeiras que, quando florissem dariam à Princesa a ilusão das neves da sua terra.
O Rei assim fez e, no Inverno seguinte levou a PrincesaGilda ao terraço mais alto do castelo.
_Ah!… exclamou ela.
Lágrimas de alegria surgiram nos olhos lindos da Princesa. Sentiu que as forças regressavam ao presenciar aquela visão indescritível do branco alvo que se estendia a perder de vista. Adeus, adeus saudade das terras do norte cheias de neve, mas à míngua de Sol... Astro-Rei que ilumina e aquece e torna ainda mais azul o Céu algarvio.... Este maravilhoso azul do Céu azul, sobre o azul do Mar... que só o Algarve tem.
O Rei Mouro e a PrincesaGILDA viveram longos anos de um amor intenso esperando ansiosos a chegada do mês de Janeiro…porque o mês de Janeiro trazia sempre, ano após ano, o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor!
Aos pesquisadores de lendas:
Esta é uma Lenda adaptada.  É a " nossa lenda" que também é tua.
Sem direitos de autor, claro..., podes levá-la e bom trabalho!!!  :))



Turma dos Peixinhos 2001/2005
Esc Penha Faro

domingo, janeiro 15, 2012

Filhóses de Joelho



Tenho andado muito afastada deste blogue, não é que tenha caído no esquecimento, mas porque o assunto se esvai...
Como não tarda está aí o Carnaval, altura em que é comum fazerem~se as filhós/filhóses deixo aqui as que fiz este Natal:
Gosto da azáfama dos dias que antecedem o Natal... a minhã MÃE, uma Sra de 84 anos feitos a 19 de Dezembro, começa a falar das filhóses, mal começa o mês. Este ano, fui buscá-la a casa (Loulé) no dia dos anos para os passar connosco em Albufeira e para iniciarmos os acepipes para a nossa Ceia de Natal... Desde miúda que a vi fazer em Alcoutim as tradicionais " Filhóses de Joelho", assim chamadas , não porque sejam feitas no joelho..., mas porque ficam convexas, também... A minha mãe, entretanto, aprendeu a dar-lhes outra forma mais " requintada". Nas Festas de Artesanato/Doces em Alcoutim, vejo-as agora enroladas de outra maneira...mas eu prefiro sempre aquelas que me recordam a infância e fizemos dessas.
Sabemos que as filhóses são o doce festivo do Nordeste Algarvio por excelência. Segundo a tradição são confeccionadas nas datas comemorativas ao longo de todo o ano, principalmente na Páscoa e no Natal. Há diversas receitas e formas de as confeccionar : filhós enroladas, de canudo, de joelho, de forma, etc..
Deixo-vos a receita das que fizemos:

Ingredientes:
5 ovos
1 kg de Farinha Espiga sem fermento( para a minha mãe, passando a publicidade, tem que ser desta...)
Sumo de 2 laranjas médias
1 cálice de Aguardente
2 cáceres de sopa rasos de banha derretida
1 Lt. de óleo para fritar
O segredo está em untar bem a mesa com óleo e estendê-las com o rolo até que fiquem muito finas, depois deitá-las no óleo bem quente. No centro pôe-se o " canudo" (de cana com 2 nós para o óleo não te queimar) e com a ajuda de um garfo encostam-se às paredes da fritadeira e vão-se moldando, ficam assim com ar de moinho de vela..hehe!!! Dá-se-lhe a voltinha e... já está!...

Para a calda final:
Mel 250gr
Acúcar amarelo 250gr
Água 1/2 copo
Depois de todas feitas, faz-se a calda. Junta-se o açúcar amarelo e o mel e a água, deixa-se ferver e quando começar a levantar espuma passam-se as filhós uma a uma, rapidamente. Temos que repetir esta calda umas 3 vezes porque consomem bastante e faz-se pouco de cada vez para não queimar porque este ponto atinge temperaturas altas. Fiz 3 kg delas, ofereci bastantes e... coloco aqui a receita porque todos querem aprender a fazê-las...

terça-feira, setembro 06, 2011

As Festas de Alcoutim já fazem 60 anos...

De facto o tempo passa e as festas de Alcoutim já fazem 60 anos...
As festas para mim e para as adolescentes da época, eram muito desejadas. Era quase a única alteração à rotina...Recordo-me de fazermos peditórios pelos montes, para ajudar nas despesas das festas. Era a população que contribuía com as prendas para a quermesse. Semanas antes começávamos a enrolar bilhetes, alguns com prémio mas a maioria em branco...

Decorávamos o recinto das festas e as ruas onde decorria a feira com bandeiras coloridas. Era o nosso trabalho dos serões que antecediam as festas - esticávamos fio sisal pelas ruas e íamos colando as bandeiras com cola feita de farinha, água e vinagre... uma cola caseira que desempenhava muito bem o seu papel, à falta de melhor. Todos participávamos nestas actividades e divertíamo-nos bastante. Era um trabalho feito pelas raparigas e rapazes da terra, em alegre cavaqueira e no meio de sonoras gargalhadas lá íamos enchendo metros e metros de fio...

Chegados que eram os dias de festa, havia muito trabalho na casa dos meus pais.
Das actividades decorrentes durante o dia eu não participava em tudo, como gostaria, pois tinha que ajudar os meus pais. Eram dias de intenso trabalho, numa casa que vendia tudo, inclusive electrodomésticos, mas o café era o que mais se vendia - eram toneladas de Café Montenegro/ do Sr. Nabeiro de Campo Maior, quando ele ainda estava longe de ser o grande empresário em que se transformou. A Espanha não produzia café e, como era um país fechado, também não o importava... Era ver as espanholas a colocar sacos de café por todo o corpo... algibeiras, pernas de calças, debaixo de cinta com que se apertavam para não parecerem excessivamente gordas....Só tinham autorização para transportar 1 kg de café, mas chegavam e esconder 7 ou 8...
Mas não se julgue que a feira me era interdita durante o dia... tinha sempre a possibilidade de me escapar e dar um saltinho à hora em que decorriam actividades a que mais me interessava assistir. Havia a travessia a nado, por norma sempre ganha por rapazes da terra, pois não é fácil nadar no rio para quem é de fora. Eu lá estava, à beira do rio, a incentivar e a gritar pelo nome dos os meus amigos...as regatas com os barcos de pesca da terra, os jogos de futebol entre portugueses e espanhóis, a feira que se espalhava pela praça e ruas limítrofes... eu aproveitava bem o tempo e sempre que podia eu lá estava!!!
Os fogos de artifício no rio sempre me pareceram os melhores do mundo e, mesmo depois de ver grandes espectáculos pirotécnicos, sempre achei que o fogo aquático, no Rio Guadiana, não tinha rival... mas do que eu gostava mesmo era do baile, à noite!!!
As variedades e o baile eram o culminar da azáfama diária e, apesar do dia de trabalho nunca me senti cansada e vivi sempre as noites a 100%.
Saí de Alcoutim aos 18 anos, e a partir daí passei a viver apenas os dias de festa propriamente ditos. No antes e no depois, deixei de participar com muita pena minha...

quinta-feira, agosto 11, 2011

ALCOUTIM e SANLUCAR...


Alcoutim e Sanlucar del Guadiana, comungam da mesma Fé!!!

Realiza-se no dia 15 de Agosto pelas 18:30, hora portuguesa, a tradicional procissão fluvial de Nossa Senhora dos Marinheiros que culmina a Semana Cultural de Sanlucar.
A imagem sai do cais de Sanlúcar e a ele regressa depois de dar uma volta pelo Rio Guadiana e fazer uma breve visita a Alcoutim.
A ATAS, Associação Transfronteiriça Alcoutim - Sanlúcar) convida a população a participar nesta tradicional cerimónia religiosa e apela aos proprietários dos barcos que os ornamentem com motivos festivos e incorporem a procissão.

Também as canoas irão participar do percurso e os iates de todas as nacionalidades ancorados no Rio, engalanados segundo a praxe naval, acompanharão o percurso um pouco mais afastados devido às suas dimensões.
Lá estarei…

quinta-feira, julho 14, 2011

ALCOUTIM - Marcha de Alcoutim - Grupo AL-BUHERA



Ontem à noite, na Praça da Republica em Alcoutim, actuaram os ALBUHERA. Este video, de Vitor Teixeira, deu-me a possibilidade de ver e ouvir, sem lá ter ido. Não é a mesma coisa, mas é muito bom!... Obrigado Vitor, bem haja!...

Já me referi, neste blogue, à Praça da Republica. É agora uma praça linda, diferente daquela que deixei para tras há 40 anos - é a praça onde morei - da janela do meu quarto eu via a vila vibrar...
Que saudade!!!
Nesta praça saltei, corri, esfolei joelhos e andei na velha escola em criança... Foi nela que adolescente me despedi de quem foi e veio e de quem partiu e não regressou jamais...foi o pulsar da vila e acho que ainda é...
O espectáculo aconteceu aqui - Actuação do Grupo de Cantares dos Balurcos e dos Albuhera. O " meu mais que tudo" - neste caso o benjamim dos meus pais com o seu acordeão. Ele adora lá ir, tb lá esfolou joelhos e essa calçada mil vezes pisada é, apenas e só, saudade do que passou a não volta mais!!!
Quem me dera também lá ter estado...

quarta-feira, junho 08, 2011

PERDIZ à ALGARVIA - As 7 MARAVILHAS da GASTRONOMIA

“Perdiz à Algarvia” passou à segunda fase das “7 Maravilhas da Gastronomia”
2011-4-11
No passado dia 07 de abril foram dadas a conhecer as 70 pré-finalistas da eleição das “7 Maravilhas da Gastronomia”.
Alcoutim conseguiu ser selecionado para a fase seguinte, com o prato “Perdiz à Algarvia”, que representa o município, a sua riqueza cinegética e as tradições gastronómicas locais e regionais relacionadas com a caça.
Desde os tempos primitivos que a caça constitui uma das atividades de sobrevivência do ser humano. O instinto de caçar está presente no homem, seja na sua forma original, na prática de desporto, ou como tradição. A caça representou, desde o Paleolítico, Idade Média e até os nossos dias, uma contribuição em carne muito importante para o regime alimentar das gentes da Serra, uma vez que os animais domésticos com exceção do porco) eram reservados para outros fins.
Coberta de floresta, esta zona sempre foi abundante em caça – coelhos, javalis, lebres, perdizes, etc. Ainda hoje, o concelho de Alcoutim é um dos municípios com mais zonas de caça do Algarve e do País, com 40 zonas de caça no seu território.
A perdiz vermelha é, durante os meses de outubro a dezembro, a espécie mais cobiçada pelos caçadores que nos visitam.
Pelos restaurantes do município encontram-se menus de caça, onde a perdiz tem a sua “montra” de destaque, sendo também alvo de promoção na “ Feira da Perdiz”, evento que se realiza todos os anos, no mês de outubro, na aldeia de Martim Longo.
A região do País com mais pratos eleitos é o Alentejo com doze, seguindo-se a região de Lisboa e Setúbal com nove. Esta primeira seleção foi realizada por um painel de 70 especialistas, de entre as 433 candidaturas apresentadas por diversas instituições regionais de todo o país.

Durante o próximo mês, o conselho reunirá para eleger as 21 finalistas, que serão votadas publicamente a partir do dia 07 de maio. Da lista constam pratos com elevada notoriedade, como o “Pastel de Belém” e o “Cozido à Portuguesa” (candidaturas apresentadas pela região de Lisboa e Setúbal), e outros, eventualmente menos conhecidos, como “Sopa de Castanhas” (região da Madeira) e “Cavaco Cozido com Molho Verde” (região dos Açores).
No decorrer da iniciativa será lançado um livro com as 70 pré-finalistas e, no final, um com as “7 Maravilhas da Gastronomia”. A par disso, está a ser preparado um guia gastronómico em parceria com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias.
As “7 Maravilhas da Gastronomia” serão reveladas no dia 10 de setembro em Santarém, cidade anfitriã do projeto.

http://cm-alcoutim.pt/portal_autarquico/alcoutim/v_pt-PT/pagina_inicial/noticias/peridz+segue.htm

domingo, fevereiro 06, 2011

Arte & Música BIG BAND - FESTAS de ALCOUTIM 2009, 2010...

Oi mano, mal te consigo ver embora ouça os acordes do teu acordeão. Aqui fica um pouco do que foi a v/contribuição para a animação das grandiosas FESTAS DE ALCOUTIM.
Em Setº 2011 há mais e eu...lá estarei por 2 motivos:
1 - Porque adoro lá ir.
2 - Porque vocês lá estarão,outra vez, digo eu.


segunda-feira, janeiro 17, 2011

BARCOS do Baixo Guadiana - em verso

Na sequência de uma entrada que postei em tempos, o João - o meu amigo Poeta,  brindou-me com estas lindas quadras, alusivas a essa exposição de barcos que sulcaram as águas do baixo Guadiana até finais dos anos sessenta, entre Mértola e Vila Real de Santo António.


A ver Navios!...

Tantos navios, que espanto,
Em tempos que já lá vão;
Ainda são hoje um encanto
Apenas na exposição!

Do primeiro, o Alcoutim,
Corre lá para emendares,
Põe lá “escaleres”, isso sim,
Em vez dos tais “ escalares “….

De Mértola, o “ Guadiana”
De carreira pontual,
Como que uma caravana,
Ia até Vila Real…

Hoje fiquei a saber,
Esta palavra: “ tresmalhos “
Pescava-se, está-se a ver,
Com as tais malhas e tralhos…

“Alforques”, o que seria?
Termo náutico, por certo,
Se é uma palavra algarvia
Só se usava ali por perto!

No “Carla” explicas bem,
Mas vê lá no que te metes,
Pois no “ Célia” também
As mesmas coisas repetes…

A “ Dora” era uma “ pateira”
Pois tinha menor “ calado”
A “ Nusca” era uma “bateira”,
“ Chata “ de casco achatado?!

O “Loulé”de Pomarão,
Andaria num vaivém
Hoje não há precisão
Há uma ponte, e ainda bem.

Havia o “ Guarda-Fiscal”
Que lá ia patrulhando,
A via fluvial
Por causa do contrabando!

Estava a “ Maria Balbina”
Que era uma canoa ou “ buque”
Que tinha vela latina,
Para o vento um velho truque.

Havia também o “Rafa”
Ainda nessas alturas, -
E que levava uma estafa
A transportar as verduras.

Vinha o “Rodrigo”, ou seja,
“Palangres” pesca ao anzol,
Com vento era à “ carangueja”
Se não – remadores de escol!

Vem depois o “ Romanita “
Nesta lista, bem no meio,
Vela latina, bonita,
Que era o barco de correio.

“Lucília”, ao que quis parecer,
Era uma lancha com arte;
“Pesca rede da colher”
Não havia noutra parte!

“ Paula “ de vela latina,
Levava toda a semana,
Gente e coisas, por rotina,
Lá no baixo Guadiana.

Eu de velas já estou farto,
Mas p’ra transporte a granel
Era o tal “Buque”– o “ Lagarto”
Do Sr. Henrique Miguel.

O Manuel Rocha quis ter,
Outro de vela latina,
Com o nome da mulher,
A “Maria Alexandrina”.

E para “pesca ao candeio”
Para a tainha “ alvorar “
Os do “ Lino “ sem receio,
Espetavam-lhe o “ Chalavar”.

O “ Boa Esperança “, outro “buque”,
Para o dono era um tesouro,
Pôs-lhe seu nome, sem truque,
O Esperança de Almada de Ouro.

A remo ou “ à carangueija”
Era o “ Zé Marujo “ assim,
Vende peixe a quem deseja,
Vindo de Castro Marim!

O “ Pé Leve “ – tapa esteiros,
Nas águas das enseadas,
Com os peixes prisioneiros,
Enchiam-se as cabazadas.

Ó “ Campino “ ainda perduras,
Apesar de hoje haver ponte?
Levas gente e viaturas,
Ainda para Ayamonte?

E para o cerco à sardinha
Existia o “ Agadão “,
Metia muita gentinha
Que era um grande “galeão”.

“ Paulo Mira “ – o “enviado”.
Pois fazia a ligação,
Descarregando o pescado
Que vinha no galeão.

O “ Jorge “ outro galeão,
No arrasto utilizado,
Ficou a ser arrastão,
Por “chatas” auxiliado.

Era um “ xaveco”, o “Nordeste”
Barca com poucos a bordo,
Mais usado no sudeste
Nas praias do Monte Gordo.

Boa amiga, onde aprendeste?
Deste outro erro infeliz,
- Arte “chávega” escreveste,
Mas vai ver, pois é com XIS.

“ Escalares”, para apoiar,
Já disse que é outro erro,
Para “ escaleres “ vai mudar,
Caso contrário, ainda berro!

Finalmente estão as “chatas”
Também ditas de “ bateiras”
Só não quero que me batas,
Por te emendar nas asneiras!

“S. Macário”, triste sina,
Na canção não se salvou…
E o “ Maria Cristina”
Sem as Minas, acabou!

Também eu vou terminar
Esta tremenda empreitada;
Foi só p’ra te contentar,
Não vai servir p’ra mais nada!

Gosto de bom Português
E por isso aqui me bato,
Não vás dizer desta vez
Que também eu sou um “ chato “…


Um beijo minha querida amiga
João


Bem hajas pela tua amizade e carinho e também por gostares da minha terra.
Obrigado/ Odilia
http://robinsoncrosoe.spaces.live.com

"FUE en SEVILLA" de SAMARINA

Muitas das minhas recordações de infância e adolescência estão ligadas também a SANLUCAR do GUADIANA. Cresci convivendo com eles e tenho um carinho especial por este povo que é uma extensão do meu. A música de Espanha teve, desde sempre, muita influência em mim. Nunca consigo ficar quieta, ao som dumas SEVILHANAS!!! Nas festas de Alcoutim, no dia dedicado a Espanha, estou sempre lá para assistir aos espectáculos de danças de Sevilhanas e Flamenco no Castelo.
Las manos de la chica son como dos palomas... que belleza, parece que estan flotando... Es la sevillana mejor bailada que he visto. Se te ponen los pelos de punta al verla... Pero la música...ohh! Además la bailan con una pasión...puff. À parte de la técnica, se les nota el arte que tienen ambos.  

Muy bonita esta sevillana, la compenetracion de los dos es como se debe bailar,bailas fijado en tu pareja sin importarte lo que ocurra a tu alrededor, es como hacer el amor pero con la ropa puesta... Viva Espana!...Sanlucar del Guadiana!... Su gente, su musica, su pasion, su alegria por la vida!

sábado, dezembro 25, 2010

ALCOUTENEJO, agora tb Cocktail...

 Adjectivo:
Alcoutenejo
Masculino/ Feminino
Singular
alcoutenejo - alcouteneja
Plural
alcoutenejos - alcoutenejas
Gentílico de:
 Alcoutim

Agora também  Cocktail:

Os meus sinceros PARABÉNS aos alunos do Curso de Restauração, variante Restaurante/Bar, da Escola Básica Integrada de Alcoutim.
Quero prová-los, todos...
“Pazes de Alcoutim”, “Alcoutenejo”, “Algarviano” e “Almareado"
 ... um de cada vez, claro!!!
Bem hajam!!!
presepio Pictures, Images and Photos

A todos os Alcoutenejos e leitores
deste blogue, desejo um
FELIZ NATAL e um ANO NOVO
 repleto de muita Saúde, Paz e Amor.


4 COCKTAILS - inspirados no concelho de Alcoutim


Decorreu na Casa dos Condes de Alcoutim, o lançamento de quatro cocktails inspirados no concelho.
Os protagonistas do evento foram os cinco alunos do curso de Restauração, variante Restaurante/Bar, da Escola Básica Integrada de Alcoutim.
O curso, de três anos, apresentou à comunidade alcouteneja o seu trabalho final, deixando aos comerciantes locais a sugestão de rentabilizar as novas bebidas, do ponto de vista turístico.

Os cocktails eram quatro, todos confeccionados a partir de produtos locais e regionais - "Almareado", "Pazes de Alcoutim", "Alcoutenejo" e "Algarviano". O "Almareado" acabou por se destacar. Feito com mel, laranja, aguardente de figo e amarguinha, o cocktail começará a ser confeccionado nos cafés e bares do concelho e associado à "marca" Alcoutim.
O presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, Dr. Francisco Amaral, sublinha a importância destes cursos e refere, a propósito da formação profissional, que "é o caminho para contrariar o despovoamento do concelho. Ensina aos nossos jovens novas formas de investir e rentabilizar os nossos produtos".
Uma notícia de:
http://www.cm-alcoutim.pt/portal_autarquico/alcoutim

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Tenho um AMIGO POETA

O meu amigo Poeta, de tanto me ouvir falar da minha terra não resistiu e foi conhecê-la...
Os seus versos, vêm provar que eu não minto... é uma terra linda, sim.
Não fui lá recebê-lo e tive pena, culpa dele porque me telefonou e disse:
_ Adivinha onde estou? E estava lá... em ALCOUTIM, a mais de 100 km da minha terra adoptiva: Albufeira.

Coitado, pobre de mim,
Que quando fui a Alcoutim
Não estavas a receber-me!
Andei lá pelo Castelo
Vendo o panorama belo
E tu não foste lá ver-me!

Mas gostei da tua terra
E das belezas que encerra
Dentro e fora das muralhas!
Estou em crer, por este andar,
Que ainda me hei-de mudar
Para lá com minhas tralhas!

Talvez que venha a encontrar
Num recôndito lugar,
Alguma Moura Encantada;
Ou simples alcouteneja
Que por sina, mal me veja,
Fique de alma enfeitiçada!

João

terça-feira, novembro 23, 2010

domingo, novembro 21, 2010

P'ra matar saudades... vou lá!!!


De vez em quando lá tiro um dia para visitar Alcoutim, um dia qualquer de um qualquer mês do calendário. Gosto de lá ir num dia assim em que não se assinala nada, em que posso ver a vila como ela é, de facto.
Vou pela Via do Infante até Monte Francisco e depois pela Via Rápida até perto da Barragem de Odeleite. Aí chegada, ando um pouco para trás e do lado esquerdo apanho a estrada marginal para Alcoutim. Encontro Alcarias e depois Foz de Odeleite no concelho de Castro Marim e, pouco, depois entro no meu concelho. Gosto de ir por aí, por entre curvas e contra curvas com o rio ao lado... A paisagem é agreste, mas linda e única. A água corre de mansinho ora para cima, ora para baixo, consoante a maré enche ou vaza. Em dias de calor a visão do rio e dos montes que o ladeiam, o cheiro da esteva e o canto das cigarras arrebatam-nos os sentidos… São divinais as sensações que me invadem...
Quando era pequena esta estrada não existia. Ainda me lembro de ver chegar casamentos e funerais em pequenos barcos. O Rio era a única via de comunicação de que dispunham as pessoas das Laranjeiras, Álamo e Guerreiros do Rio.
Primeiro vejo o Castelo espanhol, depois Sanlúcar e só mais à frente, depois da curva consigo ver Alcoutim.  Começo a ver veleiros atracados, sinal de que já estou perto...muitas famílias estrangeiras elegeram o rio para nele viver e eu gosto de ver o colorido que dão ao rio. Sugerem-me belos passeios, mar além, mas fico-me pelo prazer de os ver ali já que do mar, tenho medo...
Chego e, regra geral, estaciono e vou molhar os pés no rio. Depois, subo a escadaria que me leva ao Quiosque fronteiro ao rio e sento-me na esplanada que me convida à madorra e contemplação...
Peço algo fresco e delicio-me... Ah, coisa boa!...
                                   

segunda-feira, novembro 15, 2010

A minha ESCOLA

Era assim a minha Escola...  dois edifícios simétricos... duas salas de aula. Em baixo, a residência da Sra professora. Os tempos eram outros, mas os professores até tinham casa...e  também recebiam, de vez em quando, uns ovitos embrulhados em papel de jornal, uma galinha caseira e umas batatitas ou feijão verde...
A Escola situava-se a nascente da Praça da República, o Rio ao fundo e Sanlúcar mais além. O nosso recreio era toda a Praça... na Rua do Município, do lado esquerdo a seguir à Câmara era a minha casa, inicialmente, porque depois mudámos para a casa nova , a poente da praça, pouco depois de o meu irmão nascer.
 Actualmente a Praça está diferente - mais moderna, mais acolhedora. As casas que a ladeavam foram dando lugar a edifícios mais altos. Restam apenas o Edifício da Câmara, a casa dos meus pais e a velha Escola que, há muito deixou de vibrar ao som dos risos e gargalhadas dos miúdos, dado que outra foi construída, há muitos anos, na parte de cima da Vila.
Não é só a Praça da República que está hoje mais bonita,  também a minha Escola foi recuperada, por  fora e por dentro, mantendo-se a traça de outrora.
Perco-me a olhar para ela... desfio muitas recordações boas e algumas menos boas - que também as houve...
Naquele tempo, como já disse noutro post, a régua trabalhava!!! Foi pena!... Não fosse isso e as reminiscências seriam, todas elas, divinais...
Há pouco tempo, em Setembro voltei a ver a minha primeira professora a D.Adélia. Uma boa professora, uma boa amiga que nos acompanhou ao longo de 2 anos. Dela guardo as melhores recordações desse tempo. no final da minha 2ª classe, como então se dizia, concorreu e foi viver para Olhão e eu senti-me um pouco abandonada...  Veio depois outra professora, a D. Mª Antónia, para o seu lugar vazio...
Era muito o que tinhamos que aprender nos últimos 2 anos da primária:
Matemática - saliento os terríveis problemas das torneiras que pingavam horas a fio e quanto mais pingavam maiores eram as contas..., as áreas daqueles terrenos enormes que só havia no Alentejo, e que muitas vezes tínhamos que cercar com 6 fiadas de arame de 2$00 o metro... as multiplicações e divisões com números de meter medo que nunca consegui entender para que serviam, nem hoje consigo..., a História de Portugal, 4 dinastias - Afonsina, de Avis, Filipina e Bragança - 34 Reis  com um ou mais Cognomes que nos obrigavam a fixar - D. Afonso Henriques o Conquistador, o Fundador, o Grande... D. Dinis o Trovador, o Lavrador, o Poeta, o Rei-Agricultor... D. Pedro I  o Justiceiro, o Cruel, o Cru, oVingativo, o Tartamudo, o Até-ao-Fim-do-Mundo, o Apaixonado..., D. Manuel o Venturoso ou Bem-Aventurado, D. Sebastião o Desejado, o Encoberto, o Adormecido...  Os nomes e as datas e quem comandava as tropas, de um lado e de outro, nas inúmeras batalhas contra os Mouros, Castelhanos, invasores Franceses, etc... Os Tratados, as Terras descobertas, as Conquistas... E a Geografia de Aquém e de Além-mar em África - as Linhas de Caminho de Ferro, as Serras, os Rios e afluentes... enfim!!! Uma loucura de matéria para crianças tão pequenas!!! Nem sei como não tinhamos esgotamentos...  Não tínhamos porque ainda não era moda essa doença, do foro psiquiátrico, que haveria de surgir anos mais tarde...
Sempre fui boa aluna, no entanto, a contas de uma malfadada conta de multiplicar também experimentei as carícias da Sra D. Palmatória  uma vez, uminha só... como já contei neste blogue. Nunca esqueci, mas já perdoei a injustiça...(se ainda continuo a falar dela é porque a coisa ainda não está bem resolvida..., diria hj o Psicólogo da Escola).
Havia alguns alunos que eram, diariamente, castigados porque ou erravam as contas, ou falhavam as Tabuadas,  esqueciam a data da tal batalha ou o afluente daquele rio no norte de Moçambique ou ainda porque não faziam a mais pequena ideia do percurso da linha de caminho de ferro de Benguela em Angola...  Quanto aos erros ortográficos - era uma palmatoada por cada erro...
Fiz exame de admissão ao Liceu e, em Outubro de 1963,  passei a frequentar o Liceu Nacional de Faro e a integrar a turma J onde era o nº 34.  No total eramos 39 alunas... Usávamos bata branca, com uma fita verde presa com 2 molas. ( era o distintivo do 1º ano... no 2º vermelha, 3º cor de rosa, 4º amarela, 5º azul que punhamos bem escuro para confundir com o preto que era a cor do 7º ... e o 6º era castanha.)Tive saudades da pequenês da minha Escola, saudades que foram passando à medida que me fui ambientando e criando novas amizades.
Nunca mais vivi 365 dias seguidos em Alcoutim... mas o cordão umbilical nunca foi, completamente cortado... Continuo presa, às raízes...

quinta-feira, outubro 28, 2010

A minha AVÓ ISABEL

Sempre a conheci assim, de negro vestida. Enviuvou antes de eu nascer e, posteriormente, perdeu o filho mais novo, o meu tio Vanderdil, com 35 anos de idade. Cem anos vivesse que sempre de preto se vestiria. O preto simbolizava a dor, a ausência, a saudade dos que haviam partido...marido e filho.
Quando era miúda adorava dormir com a minha avó, bem aconchegada a ela, aquecidas com as mantas de montanheco/de pura lã de ovelha e tecidas lá em casa no velho tear do meu avô Baltasar. Lembro-me dos Invernos ventosos, da chuva a bater nos telhados, das histórias de vida que me contava enquanto o sono não chegava.
Contava-me que o meu avô assinava um jornal que chegava ao monte pelo correio. Depois de passada a palavra de que o jornal chegara, toda a vizinhança confluía para o Castelo (era assim que se chamava a zona mais alta do monte) onde os meus avós moravam.
Mais tarde, seria outro o meio de comunicação que traria as pessoas ao castelo... um rádio comprado pelo meu pai, receptor de notícias faladas, sinal da evolução dos tempos.
Quando, anos mais tarde, fomos morar para Alcoutim e regressávamos ao monte, em visita, lembro-me de a ver, sempre, no canto do muro do quintal esperando por nós... Quando o carro passava a portela, os seus excelentes ouvidos davam conta e ela apressava-se a ir ao sítio onde a minha mente, mil vezes a visualiza... para ver se seriam os seus. Guardo esta imagem como se fosse ontem...

CONCEIÇÃO

Nem tu imaginas que posso guardar uma relíquia destas... Não sabia quem era a jovem desta foto. A verdade é que não me lembro muito de ti quando era miúda. Eu saí de Alcaria Alta por volta dos 5 anos e tu também te deves ter ido embora por essa altura. Foi agora, depois de nos termos reencontrado em Sta Marta de Corroios, que identifiquei esta foto. Sei, porque me disseste, que és visitante deste blogue e de todos os que falam de Alcaria Alta e de Alcoutim, Pensei então publicá-la, expressamente, para ti.
Ofereço-ta de coração!...

sexta-feira, outubro 22, 2010

Os meus Pais e Irmão em 1961

A minha mãe não gosta de se ver nesta foto, ela vai-me matar..., mas eu não tenho outra assim, antiga, onde eles estejam os três... Foi tirada por mim junto à Igreja, a dois passos da nossa casa pois residíamos onde é hoje o Restaurante Soeiro.

Fui filha única durante 8 anos, mas pedia constantemente aos meus pais que me mandassem vir um mano... Todas as minhas amigas tinham um irmão mais novo. A Zézinha e a Gracinha tinham irmãos, a Teresa tinha irmãs, a Angelina tinha os irmãos e os primos e eu... ninguém!... Pode parecer uma coisa sem importância, mas era grande a falta que ele me fazia... Tanto chateei... que lá me fizeram a vontade.

Foi na madrugada de 28 de Maio de 1961, que ele chegou. Não sei se a cegonha veio do norte ou se veio do sul. O que sei é que colocou-o, de mansinho, ali em cima do telhado da nossa casa. No 1º andar morava outra menina que também não tinha irmãos, a Fatinha, cujo pai era Guarda Fiscal Ela dormia até mais perto do telhado, mas foi para a minha casa que ele veio. Pensei que talvez ela não gostasse tanto dele como eu e, assim, ele escolheu-me a mim. O acordar dessa manhã trouxe-me uma alegria imensa e, mercê desse acontecimento, passei a ser a menina mais feliz do Mundo!...

Nessa época o dia 28 de Maio era feriado nacional - assinalava a revolta de 1926 que pôs fim à 1ª República Portuguesa. Portanto só a 29 eu fui para a escola. O coração batia apressadamente no meu peito e o contentamento era imensurável. Percorri esses 100 metros que me separavam da escola num segundo. Já tinha espreitado mil vezes para ver se tinham chegado cedo, pois era grande a pressa de poder dizer a todos que tinha um mano lindo lá em casa...
Consta que me esqueci da pasta em casa e tive que voltar para trás... mas finalmente era chegada a hora. Antes da Sra professora nos mandar entrar já eu tinha todos em volta de mim e acabava de organizar a 1ª excursão à minha casa...
_ Então vamos lá, com sorte a Sra Professora atrasa-se hoje... e lá fomos muitos, todos...
Abri a porta, a casa encheu-se de gente miúda a querer ver o benjamim da família, o mano tão desejado da amiga. A minha mãe, ainda a recuperar, estava meio adormecida. Quando entrámos, de rompante, no quarto ela despertou quase assustada e disse:

_ Santo Deus! Ó filha, mas tu trazes-me tanta gente para o quarto, olha que o menino acorda! Tínhamos combinado que seria mais tarde na hora do intervalo e nunca todos ao mesmo tempo...

_ Ó mãe, é só um instantinho...

Nesse dia mesmo o meu pai entra na Conservatória do Registo Civil ali ao lado e baptizou-o com o nome do meu avô paterno, Baltasar. "Esqueceu-se" de consultar a minha mãe, era uma coisa que tinha que ser feita depressa para que lhe pagassem ainda o abono referente a esse mês. Tinha que se apressar...Quando chegou a casa e disse à minha mãe que o nome do franzino bebé era Baltasar ela ficou zangada por 2 motivos:

1º - Não a havia consultado;

2º - Considerava que Baltasar era um nome grande para um bebé tão pequenino, não gostava do nome mas já não havia nada a fazer...

A partir daí e, para demonstrar a sua total discordância, passou a chamá-lo de Guerreirinho. Sempre era um nome "mais pequenino", apesar de conter mais letras... E foi assim que o meu irmão passou a ser chamado por toda a gente nos anos vindouros. Ainda hoje, em Alcoutim o chamam de Guerreirinho. Em família, já adolescente, passámos a chamá-lo de Baltasar (a gosto dele), inclusivé a minha mãe que hoje já gosta do nome. Eu gostei sempre, Baltasar era o nome do meu avô e além disso era também o nome de um dos Reis Magos do presépio...

E foi assim que passei a dividir o amor dos meus pais com um irmão muito desejado.

Ainda hoje adoro o puto!..

quarta-feira, outubro 20, 2010

Ontem FLOR do campo, hoje da cidade!...

Flor - É a minha única prima, em 1º grau, do lado paterno. Sempre a vi como uma irmã mais velha. Comungávamos do grande amor da nossa avó Isabel, que recordo com muita saudade, embora tenha perdido a contagem dos anos que já passaram, sem ela. No tempo da castanha havia sempre um presente para as netas vindo da feira de Castro. Mesmo que não fosse à feira, e nunca dei conta que ela fosse, arranjava sempre um vizinho que as trazia. Sempre que passo a Castro Verde, recordo a minha avó Isabel e o seu presente de castanhas.
A Flor era também, evidentemente, a única sobrinha do meu pai e filha da minha tia Maria Teixeira e do tio Afonso. Tínhamos outro tio, a quem já me referi neste blogue, que faleceu jovem. Felizmente a minha tia foi de boa cepa. Rumou à cidade grande e passa os dias a ver Tv e a fazer o seu crochet...
Esta foto, tirada pelo meu pai, como todas as antigas que aqui publico, retrata uma jovem bonita e feliz, em plena década de 60. Cintura de guitarra bem apertada... Eram bonitas as moçoilas serranas, nas quais me incluo!...
Para quem conhece a filha, as semelhanças são evidentes!

terça-feira, outubro 19, 2010

Um adeus dói sempre!...

Odília e Isabel em 1959 - Gostei de te abraçar, miúda!!!

Hoje foi um dia difícil porque são sempre dificeis os dias de dizer adeus a alguém, para sempre!... Há rasgos de muita saudade nestas alturas, saudades dos que vão e dos que já foram. Saudades das vivências que perduram nas nossas memórias mais recônditas e são recordadas aqui com uma prima, ali com um amigo de infância, além com alguém conhecido. Saudades dum tempo que se esfuma a cada dia e em cada amigo que parte...
Impreterívelmente, essas horas em que revivo o passado levam-me sempre à infância e causam-me um misto de alegria e tristeza. Alegria porque recordar é viver 2 vezes; tristeza porque a realidade, neste caso, é sempre sinónimo de ausências...
Hoje, o meu pai esteve ainda mais presente no meu pensamento... porque o João era um primo especial, por quem ele nutria grande estima. É nestes momentos de grande interiorização em que estamos ali pensando em tudo e em nada, aguardando sem relógio e sem pressas que conseguimos apreender o que afinal tem significado: os vínculos que unem as pessoas, as lágrimas sentidas, os pequenos gestos, os parcos dizeres...
E para finalizar, a certeza de que são consolo hoje, os sorrisos que nos aguardam, algures, no amanhã distante!...

quinta-feira, agosto 05, 2010

Obrigado, Sr António Rúbio, bem haja!...


Vindo do Porto, hoje ao princípio da tarde, apanhei um táxi à porta da gare do Oriente. Expliquei ao motorista para onde queria ir, e notei o seu sotaque, que me pareceu alentejano. Perguntei-lhe de que terra do Alentejo era, e o senhor disse-me que era algarvio, ao que eu respondi que por vezes a entoação da voz se confundia.Então ele disse-me que não era do Algarve das praias e dos turistas, que era do nordeste algarvio, de Alcoutim, terra onde nunca estive, mas que muitas vezes vi o desvio, no caminho do de V.R. de Santo António para Mértola, a caminho de Lisboa ou de Aldeia Nova de S.Bento, no Alentejo.Falou-me da terra e da figura do médico Dr. João Dias, agora à noite estava às voltas com twitters, FB e outlook express e lembrei-me de procurar a terra e o médico. Fui parar ao seu blogue e do sr. Varzeano, ficando encantado com todo o vosso amor à terra e ao personagem médico e à figura de seu pai.É tão bom que se mantenha a memória, das pessoas e das terras, das nossas infâncias e recordações.Bem hajam pelo que fizeram e que mais venham a fazer, parabéns!


De facto, é assim, tanto eu como o Sr José Varzeano temos um grande amor àquela terra, minha terra natal e dele terra adoptiva, mas muito amada. Não se comparam o meu blog e o dele... O meu é muito emoção/coração/sentimento, mas o dele são testemunhos, é património - riquezas de um povo.

Mas Alcoutim é assim, prende-nos... Quando for possivel desça até lá, vai ver que é uma terra linda e vai ver que vale a pena...

Vindo de VRSA entre na marginal, antes da barragem de Odeleite, sempre ao longo do Guadiana. É o Rio ali sempre ao lado e as paisagens que são agrestes, mas naturais e lindas. Vindo de Mértola, desça na nacional antiga e continue então pela marginal. De um lado ou de outro é sempre bonita.


Obrigado pela sugestão, quando fôr visitar um irmão que vive (...)perto, irei mais abaixo e espreitarei com atenção a vossa estimada terra.Vim muitas vezes de Cabanas de Tavira para Lisboa via Mértola e Vale de Mortos, para fugir ao trânsito da antiga estrada do Algarve, e via o desvio para Alcoutim.Também já vi artigos em revistas, sobre o desenvolvimento social e turístico da vossa terra.


Um "quase" diálogo de 2 pessoas que não se conhecem, mas que encontraram um ponto em comum: ALCOUTIM.

Obrigado Sr Rubio e visite-nos. Será sempre bem vindo.

quinta-feira, junho 10, 2010

25ª FEIRA DE ARTESANATO e ETNOGRAFIA - ALCOUTIM


Nos próximos dias 12 e 13 de Junho, tem lugar a 25ª Feira de Artesanato e Etnografia de Alcoutim e realiza-se mais uma vez no espaço envolvente da Praia Fluvial do Pego Fundo decorrendo entre as 16 e as 24 horas.
É uma verdadeira viagem ao passado do concelho e das suas gentes. Podemos ver os artesãos a trabalhar ao vivo e apreciar uma grande variedade etnográfica, usufruir de muita animação musical e da excelente gastronomia da região. De salientar as Tasquinhas típicas repletas de sabores divinais, misto de aromas da nossa gastronomia. São uma tentação aos olhos, um adoçar de boca e um consolo de alma... e a dieta, como sempre, recomeça na segunda feira!...

Na música, não quero de modo algum perder os Cottas Jazz Band que estarão presentes no sábado e também no domingo... (e ainda bem porque no sábado não posso ir... e sou mana dum dos cotas...), mas também actuam os Arranca Telhados...(?!), a Brigada 14 de Maio, os Balasom, Os Maltezes e José e Vitor Guerreiro...
Baile no sábado...e eu sem poder ir!!!
Tudo isto devemos agradecer à Associação A Moira, à Câmara Municipal de Alcoutim e à Caixa de Crédito Agrícola do Sotavento Algarvio.
BEM HAJAM!...

quinta-feira, junho 03, 2010

ANGELINA


1 de Junho, 9 anos...tantos!!! Sem ti...
O tempo passa, mas a saudade fica!
Porque morei em Faro de 1997 a 2008, reavivámos a nossa amizade de infância e passámos a estar juntas muito tempo. Um dia, vem a má notícia e por imperativos disso, ainda passámos a estar juntas mais tempo. A nossa amizade que já era grande, cresceu ainda mais e ela agarrou-se à vida porque a amava e eu agarrei-me ainda mais a ela porque não a queria deixar ir...

Foram 2 anos de luta intensa, mas quem a conheceu sabe da sua força e coragem. Ela nunca perdeu a fé, a esperança, nunca!...

Eu trabalhava na Escola Dr José Neves Júnior, que ficava a 5 minutos da casa dela e, ir fazer-lhe companhia era o que me apetecia a cada dia, ao final da tarde. E era isso que,quase sempre acontecia.

Não eram tardes de tédio, as nossas. Eram tardes agradáveis em que viajávamos pelo passado e pelas vidas de cada uma e projectávamos um futuro repleto de alegrias. Foi uma cumplicidade enorme. Deixámos de ter segredos, dividimo-los, repartimos alegrias e tristezas e assim nos apoiámos um dia e outro e outro...
Quando ela foi, foi um pouco de mim... ficou uma saudade imensurável, porque ela era assim, dáva-nos tanto que deixou um vazio enorme nas nossas vidas.
Sempre que se aproxima o 1º de Junho, relembro-a ainda mais... no passado mais recente, no mais distante, nas horas felizes da nossa infância...

Naquela tarde longínqua, havia pinturas em minha casa. Morávamos ali, onde é hoje o Minimercado. A D. Angelina/tia estava a ajudar a minha mãe nessa azáfama e nós, miúdas de 7 ou 8 anos, fomos brincar para o rio. Havia um canavial ali a montante, entre o cais velho e a foz da Ribeira dos Canaviais e foi aí que construímos uma Cabana com canas. Recheámo-la com as nossas bonecas, miniaturas de panelas de alumínio e um fogão, tudo acabadinho de comprar na feira de S.Marcos e preparámo-nos para brincar uma tarde inteira...
Ja fazia calor... De repente, ela começou a sentir comichões nos braços e nas pernas, por todo o corpo e, num ápice ficou cheia de babas em cada centimetro de pele. Muito vermelha ela, muito assustadas as duas... corremos para casa pedindo ajuda. Mal nos viram, a minha mãe e a D. Angelina logo perceberam que era uma grande alergia ao pó das canas. A toda a velocidade a minha amiga foi despida e metida dentro de um alguidar de zinco para onde deitaram água quente e quase meia garrafa de vinagre...
_ Vá, agora um banhito malcheiroso de água com vinagre...
No meio das nossas gargalhadas e molhadelas aquilo passou a ser a continuação da brincadeira interrompida. E eu a morrer de pena por não ter babas, para estar lá dentro também...
Rapidamente as babas esmoreceram e ela depressa ficou boa.
_ És alérgica ao pó das canas, menina. Não voltes lá.
_ E eu?
_Tu não és, está visto...

Recordar e viver 2 vezes, amiga!...

domingo, maio 16, 2010

Quatro bons amigos.


Dos presentes, quem não tem hoje cabelos brancos, é porque os pinta!!!
Só identifico 4... Passaram-se 40 anos, desde que foi tirada esta foto...


Em cima, à esquerda, de óculos - o Duarte.
Tenho saudades tuas, miúdo. Nunca mais soube de ti, que fazes, onde andas??? Recordei-te a vida inteira. Durante muitos anos trabalhei numa escola onde havia a Unidade de Surdos e para onde eram canalizados os miúdos de todo Algarve. Nem imaginas as vezes que me vieste à memória, nem os sorrisos silênciosos que me afloravam aos lábios, quando "te via" nesses miúdos, meus alunos... Perdi-te no tempo e no espaço, bem gostaria de te voltar a ver...
À direita, de olhos quase fechados(!!!), estou eu...
O fotógrafo, meu pai, bem podia ter esperado por melhor pose da sua filha...
Em baixo, "a minha parente" Candinhas por quem os meus pais e eu própria temos uma grande amizade e um carinho muito especial. Sempre nos tratámos assim...por parentes. Talvez isso quisesse dizer que, não sendo familiares, éramos quase...dado que a amizade que nos uniu e une, ainda hoje, é muito grande.
Por último, o Aníbal - nosso grande amigo e enfermeiro, à epoca. Ele continua igual. Tive o prazer de o encontrar no ano passado e de termos posto, um pouco, a conversa em dia.

Gosto de olhar as fotos antigas e descobrir semelhanças.
Gosto de recordar a minha meninice, os meus amigos.
Gosto de lembrar, como éramos todos tão amigos e tão felizes.
Gosto de ALCOUTIM, gosto mesmo!...

sexta-feira, maio 07, 2010

RIBEIRA dos CADAVAIS - Praia Fluvial de Alcoutim

PEGO FUNDO
Ribeira dos Cadavais há 40 anos...
Alguns dos meus amigos aprendiam a nadar aqui neste local ou um pouco mais abaixo onde fica hoje a ponte. Nunca tive essa sorte porque a minha mãe tinha um medo terrível que me afogasse. Devo ter sido das poucas miúdas que não aprendeu a nadar na ribeira!!!
Deste local em especial, ainda me lembro de ir com a Gracinha à horta apanhar laranjas e, no regresso, brincarmos aqui e apanharmos enguias minúsculas...
Mais tarde, já no Liceu, aprendi que as enguias adultas desovam no Mar dos Sargaços depois de uma longa viagem migratória com origem nos rios da Europa e da América. As larvas eclodem no mar e, após algum tempo, são levadas pela corrente do golfo e, já perto da costa, encontram os mesmos rios de onde vieram os seus progenitores. Sobem o rio e iniciam a vida adulta...
Recordei, nessa aula de Zoologia, a nossa " pescaria de enguias bebés" e pensei que só podiam ser cobras de água...
Senti um calafrio... se há bicho que me apavora, é cobra...

PEGO FUNDO
Ribeira dos Cadavais hoje...
Local de recreio e lazer, por excelência, é hoje a Praia Fluvial do Pego Fundo um dos maiores atractivos do concelho. Situada já próximo da foz com o Rio Guadiana, é uma praia de areia dourada bastante bem equipada com um vasto leque de infraestruturas e serviços.
Para além do apoio de praia com nadadores salvadores, bar, sanitários, duches, parque automóvel e acessos adaptados para deficientes, a Praia dispõe ainda de um parque de merendas, de parque geriátrico, campo de voleibol e uma área para actividades lúdicas e desportivas.( fonte C.M.A)
Um belo sítio para passar uma tarde em família... digo eu!...
Obs: A primeira foto foi tirada pelo meu pai/ João Baltazar Guerreiro, há mais de 40 anos...
A segunda foi retirada da Internet.

quarta-feira, março 03, 2010

Ao meu PAI


Foi em Março que partiste,
num dia triste
que nunca esqueço.
Deixaste o vazio
que deixam os pais quando partem.
Deixaste uma dor imensa
no meu coração de filha
que menina queria ser
para, de novo, te ter...

O tempo passa, Pai ...
Vem outro ano, chega outro Março

e eu, só queria poder abraçar-te...
apagar velas, beber champanhe
e festejar contigo
a vida que me deste.


Ironia do Destino...

No meu dia, falta-me agora o teu sorriso
e, nesta data, levo-te rosas em vez de beijos...
Como é grande e imensurável
a falta que tu me fazes!...
Estarás no Céu, certamente,
mas a Saudade ficou
no meu coração
ETERNAMENTE!...


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FOTO:
O meu Pai, o meu irmão e eu.
Teria os meus 9 anitos.
Esta foto foi tirada junto da Igreja Matriz em Alcoutim.
Reviver é viver duas vezes... diz-se!...

terça-feira, março 02, 2010

Como eu vivia as cheias do Guadiana...

Sempre senti um carinho muito especial pelo meu rio. Há dias passei por ele em Badajoz e não pude deixar de pensar que, apesar de o País ser outro, ele continua a ser um pouco meu... onde quer que com ele me cruze.
Os romanos chamaram-lhe Anas ao que os árabes juntaram uádi (a palavra árabe para rio) sendo então o Úadi Ana, abreviado para Ouadiana, depois Odiana e mais tarde Guadiana. Foi este importante curso de água o eixo do al Gharb al Andalus, que em árabe quer dizer o ocidente da Hispânia englobando, grosso modo, a Andaluzia hoje na Espanha e os nossos Alentejo e Algarve.
Estas 2 fotos são muito antigas, terão mais de 40 anos. Fazem parte do espólio de muitos negativos que o meu pai guardou nas suas gavetas e que guardo agora num CD.
Naquele tempo, o Guadiana mostrava-se assim... um rio calmo que corria tranquilamente pelos campos fora. Havia em Alcoutim alguns barcos de pesca, era via de comunicação e servia de fronteira. Tambem era morada de algumas famílias de pescadores, recordo-me de algumas familias que viviam nos barcos...


De vez em quando chovia bastante e, ele enchia, enchia... tapava o cais e subia. Beijava os pés da Casuarina, inundava-lhe o espaço e, algumas vezes que me lembre, empoleirou-se-lhe na copa.
Lembro-me de uma vez em que chegou aos degraus da minha casa (onde é hoje o minimercado), inundando também os degraus da minha Escola e a Capela de Sto António - minha vizinhança da frente...
A aflição dos nossos pais era enorme com o rio a subir, a subir...
Depois de algumas horas de angústia e de muitas orações também, as águas começavam a baixar. Os resíduos que ficavam - muitos galhos, canas e muita lama eram uma maravilha para nós. Calçávamos as botas de borracha pretas (hoje galochas coloridas, coisa bem mais chique), a miudagem divertia-se à grande porque até ser tudo removido, esperavam que a lama secasse, aquele era o centro das nossas brincadeiras. as nossas mães zangavam-se, a roupa ficava enlameada e os pés dentro das botas ficavam malcheirosos, brancos e franzidos...

Por me lembrar sempre disso, nunca comprei dessas botas aos meus filhos. Certo dia, já a minha filha era mulher, estávamos a ver uma montra onde estavam expostos vários pares de galochas coloridas. Com um ar nostálgico, disse-me que sempre guardara alguma mágoa por eu nunca lhe ter comprado umas, já que todas as amigas tinham... Tive uma vontade enorme de lhas comprar, mas agora era tarde.
Tinha passado aquele sonho de menina...

terça-feira, dezembro 08, 2009

Recordar um alcoutenejo - João Baltazar Guerreiro/ Meu Pai



Agradeço, José Varzeano, o que escreveu sobre o meu pai no blogue Alcoutimlivre
É gratificante tomar conhecimento de coisas que desconhecia e o orgulho que sinto, ao ler o que sobre ele escreve, é imensurável... Obrigado e bem haja.

Estatura média, para o forte. Barriga um pouco saliente. Feições gradas, olhos grandes, cabelo preto e hirto. Um timbre de voz não vulgar e inconfundível.Devia de andar na casa dos quarenta.O cachimbo e as fumaças caracterizavam o seu porte. Vestia sempre fato completo.Conheci-o logo que cheguei à vila de Alcoutim em 1967. Já lá vão uns bons anos!Era natural do concelho, mais propriamente do monte de Alcaria Alta, onde nasceu em 1926.É na sede da sua freguesia, a aldeia de Giões, que faz a 4ª classe sendo sempre bom aluno. As dificuldades em todo o país eram muitas e em Alcoutim, pelo que se conhece, ainda era pior. Poucos conseguiam fugir da ocupação agrícola ou do pastoreio para a casa ou para o patrão.Quem possuía uma arte já estaria um pouco melhor mas a diferença não era muita. João Guerreiro aprendeu com os pais a arte de tecelão. Teciam linho com que se faziam toalhas de rosto, lençóis, colchas, etc. A lã dava origem a belíssimos cobertores e mantas, entre outras peças.Nesta altura a freguesia de Giões era a mais têxtil do concelho com teares rudimentares espalhados por todos os montes, havendo igualmente na aldeia grande actividade nesta arte artesanal como já tenho tido oportunidade de referir noutras ocasiões.Depois, como pessoa sempre interessada em saber coisas novas, aprende a técnica da destilação e instalou um alambique no monte natal onde destila principalmente medronho e figo. Pelos 24 anos procura companheira, com quem casa e foi buscar a um monte relativamente perto, mas da freguesia de Vaqueiros. Foi a mãe de seus filhos e um pilar onde sempre se apoiou. Chegou à Vila de Alcoutim para tomar posse do lugar de Aferidor de Pesos e Medidas da Câmara Municipal o que veio a acontecer em 21 de Julho de 1952 e onde vencia uma ridícula importância mensal. Verdade seja que não cumpria o horário normal do funcionalismo, pois não ganhava para isso por um lado e o trabalho igualmente não o justificava. Ia à Câmara quando era preciso e não mais. Tinha contudo o serviço anual de aferição que se realizava no princípio do ano, se não estou em erro e que naturalmente efectuava percorrendo todo o concelho.Deslocava-se diariamente de Alcaria Alta, à vila e só por volta de 1958 se fixou na sede do concelho com a família. Monta entretanto uma pequena relojoaria, consertando e vendendo relógios em nome da esposa já que como funcionário não a podia possuir. Isso acontece numa pequena casa situada na Rua Portas de Mértola e onde paga 60$00 de renda.Cerca de um ano depois muda-se para a Rua do Município onde é hoje o Bar Miragem e parte do Minimercado Soeiro, onde igualmente fixa residência.Tendo sido posto em venda o edifício comercial que foi desde tempos imemoriais a chave do comércio da vila, sendo no século XIX propriedade da Família Torres, passando depois para a Família Serafim, foi a esta que João Baltazar Guerreiro o adquiriu.



[JBGuerreiro no seu estilo inconfundível despachando um café no seu estabelecimento comercial. O cachimbo lá estava]

Quando conheci o estabelecimento comercial compunha-se de mercearia e venda, vendendo também relógios, rádios, balanças e fogões a gás, que eu me lembre.Como já aqui informei, numa pequena divisão que tinha porta para a Rua Dr. João Dias, montou um pequeníssimo café com duas ou três mesas e em que a máquina só tirava um café de cada vez.O Café veio pouco tempo depois a motivar toda a reorganização do espaço comercial, pois foi o ramo que passou a ocupar maior espaço, já com uma máquina moderna e com dez ou doze mesas.Se não estou em erro, pertenceu a João Baltazar Guerreiro, que usava muito na escrita e na palavra JBGuerreiro, a iniciativa de mostrar a televisão acabada de chegar, o que não era fácil devido a muitos condicionalismo, que já aqui referi, de ordem técnica e geográfica. Funcionava nessa altura na parte alta da vila, na Rua D. Sancho II, em casa que foi de Leopoldo Martins um aparelho de TV, havendo cadeiras para as pessoas se sentarem, pagando-se por isso 1$00 que revertia a favor da Santa Casa da Misericórdia. A imagem era naturalmente muito deficiente mas mesmo assim tinha sempre casa cheia.Fui lá duas ou três vezes, uma delas para ver o famoso Zip Zip, com Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. A instalação deste aparelho teve por base o interesse e desenvolvimento de JBGuerreiro.

Carteira de fósforos que me ofereceu JBGuerreiro, cuja capa reproduzia o seu jovem filhote que todos conheciam por Guerreirinho e que mantenho intacta]

Ainda há poucos anos tive conhecimento que também tinha sido ele que no moinho da Pateira, perto de Afonso Vicente, instalou antena e aparelho dando assim oportunidade às pessoas desta zona, que na altura eram muitas, de ver pela primeira vez imagens televisivas. Pagavam, segundo o meu informador, 1$00. Numa destas tarefas, vieram jantar à vila para depois continuar a sessão. Por precaução, decidiram tapar o gerador com uma serapilheira. Ao regressarem para continuar o trabalho, como o motor estava quente, a saca ardeu queimando a máquina. Ficou realizada a sessão da noite!João Guerreiro teve sempre tendências para estas coisas: relógios, máquinas fotográficas, rádios, televisores, fogões, etc.


[Velho Fiat de JBGuerreiro]


Dos seis automóveis então existentes na vila, um deles era o seu Fiat .Foi João Guerreiro que teve a iniciativa nos primeiros anos da década de 60 de fomentar a edição de uma colecção de postais representativos da vila, o que até aí nunca tinha
acontecido.
Ainda que a escolaridade fosse a própria da época (4ª classe), João Guerreiro gostava de ler e com isso ia aprendendo, já que era uma pessoa inteligente. Depois punha em prática o que aprendia para admiração dos outros. Dizia muitas vezes:- Isso é fácil de fazer, é preciso é ter as coisas que por vezes não se arranjam. Era um “engenhocas” no sentido positivo do termo.Tinha também outros interesses, talvez menos conhecidos e de que eu me apercebi com alguma admiração. Gostava de saber as coisas do passado, interessava-se pela história, arqueologia, pelas lendas, pelos monumentos, velhas minas, etc. e algumas pistas sobre determinados assuntos foram-me dadas por ele.Como já aqui referi foi na sua mão que vi pela primeira vez uma parte do livro do Visconde de Sanches de Baêna, Famílias Nobres do Algarve, 1900, que eu então desconhecia completamente. Mostrou-me também um código de justiça que penso ser do começo do período liberal e outras velharias que agora não posso precisar.Não era fácil encontrar nessa altura na vila uma pessoa que se interessasse por estes assuntos.Era no seu estabelecimento comercial, por deferência do casal Guerreiro, que para o efeito me mandavam chamar e que eu ia atender as chamadas da minha então namorada.Os telemóveis estavam ainda muito distantes!Era um “bon vivant”, adorando um petisco com os amigos e que tinha muitas vezes lugar na rua, frente à porta do primitivo café. Tudo servia para a petisqueira para se beber um copo e onde nunca faltava, porque também era admirador, as cantorias, ora os cantares alentejanos que praticava, ora o fado tanto de Lisboa como de Coimbra, conforme os convivas se ajeitavam e havia sempre quem fizesse uma perninha. Isto por vezes entrava pela noite dentro, com os naturais protestos da D. Cesaltina.João Guerreiro era um homem solidário e não me esqueço que em 1970 quando fui levar a minha mulher para nascer o meu filho, no regresso, nas descidas da ponte da Foupana, saltou uma roda ao táxi e se nada de grave aconteceu, foi porque não calhou.Tendo-se sabido isto na vila, João Guerreiro meteu-se no carro com o Dr. João Dias e foram ao nosso encontro para o que fosse necessário. Encontrámo-nos ao Celeiro. Nunca me esqueci disto.Em conversas recatadas, mostrou sempre a sua discordância com o regime político vigente.

[Estabelecimento comercial na Praça da República e pertencente aos Hºs de JBGuerreiro, 2009]

Exerceu durante alguns anos as funções de tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia de Alcoutim.Foi correspondente do jornal diário O Século.Em 1972 e após a saída do Dr. João Lopes Dias, de quem era amigo, para S. Brás de Alportel, resolveu pedir a sua transferência para a Câmara Municipal de Loulé, onde já tinha um vencimento compatível e possibilidades para os filhos continuarem os estudos.Aqui se reformou em 1990, tendo falecido nove anos depois.A última vez que com ele contactei foi no Convívio de Naturais do concelho de Alcoutim na Amora, penso que em 1986, onde me desloquei a convite da organização e onde ele tinha ido também com o Dr. João Dias.Recordar aqui este alcoutenejo é uma pequena e justa homenagem que lhe prestamos.Nota BreveAgradeço à Família, nomeadamente a sua filha Odília e viúva D. Cesaltina, a colaboração prestada.